O Encantador de Serpentes

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Você já deve ter ouvido a expressão ” estar por um fio “, não ?!!  Pois é

         O sucesso da trupe do “Festival de Palhaços” e minha apresentação de “Mister M” (leia o causo anterior) foi motivo de convite pelo secretário da cultura para atuar na “Feira da bondade”. Novos amigos acrescentaram ao grupo e por este motivo, cedi meu papel de “Mágico Trapalhão” a outro componente. Decidi apresentar algo novo. Devido meu porte atlético de faquir (na época), resolvi apresentar o número do “Encantador de serpentes”. Vestia um coletinho dourado (de alguma periguete da época) deixando à mostra o peito ossudo (podem rir… mas era assim mesmo) e uma calça que alguém tomou emprestado com a “Jeannie, é um gênio”. Apresentava-me descalço. Na cabeça um turbante que mais parecia um ninho de passarinho. Entrava com o cesto debaixo do braço, fazia reverência ao público e sentava-me em posição de ioga, colocando-o entre as pernas. Começava a tocar a flauta doce que ficava em cima do cesto, levantando-a lentamente. Na sua ponta, um fio de nylon finíssimo, quase invisível ao olho humano, levantava uma cobrinha (acho que foi feita da meia calça de oncinha da periguete do colete). Novamente triunfamos com nosso entretenimento e as apresentações renderam muitos aplausos e um novo convite para outro evento.

        Desta vez nosso espetáculo era ali, no parque de exposição, e alguma coisa me dizia que meu futuro de artista estava por um fio. Todos os números foram apresentados como esperado. Um seleto grupo de crianças rechonchudas, de sorvete escorrendo por entre os dedos e um senso de educação a desejar, esperavam impacientes numa verdadeira algazarra a minha vez. Confesso que tive medo de ser devorado, o que quase aconteceu. O porquê ?! Um maldito, descarado, peçonhento, vira-lata, invejoso (e mais uns tantos outros adjetivos que não caberiam numa folha A4), faltando 5 minutos para minha apresentação, teve a amabilidade de roubar o fiozinho de nylon na altura do campeonato. Como iria levantar a cobrinha? Aonde arrumaria outro fio? Como enfrentar um bando de canibais devoradores de sorvete? Meu desespero desapareceu dando lugar a uma sinistra gargalhada. Ninguém entendeu nadica de nada. E com este pensamento entrei em cena: “…se é para esculhambar, que assim seja.” Entrei calçado de Kichute (tipo de tênis famoso da época). Mal havia começado minha apresentação, quando ouvi um berro seguido das gargalhadas estrondosas ecoando em meus ouvidos: ­__Olha lá genteeeee, é o cadarço do kichute dele que está levantando a cobrinha kkkkkkkk! Foi aí que a meninada pode perceber que… em um dos meus pés faltava o grosso cadarço que, de tão grosso, podia ser visto à quilômetros dali a olho nu.
         O primeiro sorvete pegou na testa e foi o único sabor de que me lembro. Logo a seguir viria uma chuva de muitos outros sabores. Aquela cena de pastelão não rendeu aplausos, mas uma gargalhada de doer à barriga e, juro a vocês que naquele momento eu amei tudo aquilo. O sorriso de criança encanta, mas a gargalhada nos leva ao delírio. A vida me fez enveredar por outros caminhos. Meu porte atlético de faquir ganhou massa (pelas massas de pizzas e lasanhas entre outras) e das artes cênicas me despedi de maneira honrosa: “…a cobrinha subiu de qualquer jeito” rsrsrsrs. Tantos outros causos como este do “Encantador de serpentes” se passaram, colorindo mais a minha vida, assim como a história do “cágado” que jurava ser uma tartaruga, mas… isto fica para próxima. Quem viver lerá!

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