Vote em mim

          1985. Fim do regime militar. Morria nosso histórico Presidente Tancredo Neves e nascia o então “Partido da Juventude”. Tido como inovador, ético, promessa de renovação política. Em 1988, a especulação da candidatura do governador de Alagoas, Fernando Collor de Melo – “O Caçador de Marajás” à presidência da República dava-se como acertada.

          Justamente neste ano, a convite de um amigo da família que participei das eleições municipais como candidato a vereador. A abordagem feita: “Queremos VOCÊ do nosso lado” soava tanto como “I WANT YOU”, do célebre cartaz do Tio Sam.  Assinei a ficha de filiação partidária cheio de esperança e fé, e então…  começava minha primeira e única experiência direta na política. Mal comecei e conheci a palavra COLIGAÇÃO. Minha primeira divergência. Apresentava-se sórdido o bastidor político e tudo aquilo que parecia honesto e promissor caiu por terra. As promessas eleitoreiras, cabides de emprego, desconstrução da imagem e fake news impressos, já eram artimanhas utilizadas no meio político daquele tempo. O verdadeiro sentido da palavra “partido”, naquele momento político, nunca deixou de ser tão claro para mim como sendo: separado, dividido, fragmentado, fatiado. Vi a direita brigar com a esquerda, como irmãos brigam por um brinquedo e depois, abraçados em cima do mesmo palanque, trocarem beijos e apertos de mãos em prol de suas ambições. Fornicação eleitoral. O discurso de ódio “Nós conta Eles”, favorecia a quem?! Nós quem?! Eles quem?! O que seria ser de Direita?! O que seria ser de Esquerda?! Qual o valor do voto?! Até quando a famosa “Lei de Gerson” faria parte de nossas vidas?! Recusei fazer parte daquele circo. Recusei fazer parte daquelas manobras eleitorais. Recusei levantar qualquer bandeira. Também… Como era de se esperar, não fui eleito.  Mal tive os votos dos familiares, mas foi bom ver de perto os mecanismos e a complexa matemática eleitoral. Com isto me tornei um eleitor mais crítico e apartidário.

          Assim que depositei meu voto na urna, vim entediado com o mar de lixo que se espalhava pelas ruas. Dentre as centenas de milhares de “santinhos” de candidatos que esvoaçavam pela cidade, achei apenas um cartão que havia feito como divulgação. Um. Sim… Justamente este que ilustra esta crônica, cuja frase peguei emprestado da fala de Charles Chaplin, do último discurso no filme “O grande ditador”. Naquele dia fiquei por um bom tempo namorando este cartão. Com um sorrisinho nos lábios guardei-o no bolso como souvenir. Fui embora para casa, me sentindo um belíssimo idiota, chutando aquela enxurrada de propaganda eleitoral como se eu fosse o Gene Kelly na famosa cena clássica de “Cantando na Chuva”. Poderia ser até idiota, mas… Definitivamente Charles Chaplin era genial. Ahhh que era, isso era!

Sandro Ernesto 04/05/2020

Você pode gostar...

21 Resultados

  1. O miau disse:

    Que recordação! Rs
    Sempre foi assim e parece q será.

    • panografias disse:

      Sim, uma recordação e tanto, minha amiga. Passado tanto tempo, também acredito que continuará sendo assim. Analisando o trecho de Chaplin que escolhi, tão lindo, penso que continuo o mesmo também. Utopia?! Talvez, mas que valeu um conto, valeu kkkkkkk Beijo no coração e obrigado!

  2. estevamweb disse:

    Li atentamente seu conto… Eu ainda era um adolescente nesta época, morava na roça, sabia quase nada de politica, já sabia um pouco de politicagem, participando dos grupos de jovens de Igreja. Meus tios com pequenos pedaços de terra herdados de meu avô tinham medo do comunismo… comum o quê? Até hoje, no Brasil, quase ninguém sabe o que isso significa, mas, o fantasma ronda a nação… Meu tio, que faleceu anteontem, foi um que me convenceu a votar no caçador de marajás, com medo dos comunistas lhe tomarem a terrinha… Assim seguimos… Nós e eles, inimigos de ocasião… Na única vez que diretamente atuei na politica, vi tanta politicagem, que decidi: filiar-me a partido jamais… Ser candidato, então… Menos ainda….
    Paz e Bem, irmão.

    • panografias disse:

      Meus sinceros sentimentos Estevam. Foi uma experiência e tanto vivenciar tudo isto de perto. Passaram os anos, o caçador de marajás foi cassado e voltou, mas eu não… uma vez só basta! rsrsrsrs Obrigado meu querido amigo… grande abraço e que Deus conforte à todos!

  3. blue moon disse:

    Grande Tancredo !
    Esteja ele onde estiver, que decepção é Aécio.
    Embora tenha nascido em São Paulo, minha família é de São João del Rei . Tenho ótimas lembranças . Obrigada por me fazer relembrar.

    • panografias disse:

      É verdade querida Blue Moon… a diferença entre um e outro é que: o primeiro foi um grande “Estadista”, o outro, um grande “Vigarista”. Nasci e moro em Sete Lagoas ( 70 km de BH ), somos vizinhos. Eu que agradeço a visita e comentário aqui minha amiga! Beijo no coração

    • blue moon disse:

      Poxa que Legal! Amo Minas e sua culinária em excelência!
      Sempre que posso, pinto por aí, entre São João del Rei e Tiradentes. Por muitas vezes já pensei em nem voltar …rsrs
      Eu que agradeço!

  4. blue moon disse:

    Sobre Aécio, sem comentários. Só não quero ter que pagar a platina de seu nariz . Rsrsrs

  5. estevamweb disse:

    Veja só, Sandro… Não sei porque eu imaginava que você morava em Ponte Nova… Sete Lagoas deve ter algumas pontes, e, talvez tenha alguma nova… rsrsrsrssers

    • panografias disse:

      Se não tiver ponte nova nos atravessamos de barco, meu caro kkkkkk. Tenho filhos que moram em Bh. Eu, particularmente gosto muito daqui… é quase tranquilo. Um dia que tiver de bobeira, vem com a família tomar um café com a gente! Será bem vindo

    • estevamweb disse:

      Será um prazer… Deixa passar esta fase de pandemia. Vamos combinar sim. Já até planejei aqui um encontro marcado com o Geraldo, a Alda, o Orlando do Blog Rabiscos Poéticos do Carvoeiro (não sei sei segue), a Renata, o Daniel, enfim, poetas da região. Quem sabe marcamos este encontro pós pandemia.
      Obrigado pelo convite. Estamos na expectativa. Paz e Bem!

    • panografias disse:

      Estou dentro… depois vc me passa os links do blogs (alguns que citou eu conheço e sigo) Obrigado por tudo… abraços

    • estevamweb disse:

      Vida intensa vida você já tem da Alda Santos.

    • estevamweb disse:

      Talvez você não tenha dó Orlando. Ele é de Betim. O blog dele é
      Rabiscos Poéticos do Carvoeiro.

  6. Darlene R. disse:

    Ah, meu caro! A política é parte importante da minha vida. Nunca fui candidata, mas fiz parte da coordenação de uma candidatura que representou um coletivo político – Na verdade, foram duas candidaturas do mesmo camarada, a primeira para vereador aqui em Santos e a segunda, para Deputado Federal. Te asseguro que foram experiências marcantes, intensas. Pra mim, foi gratificante estar imersa nesse universo, conversar com as pessoas, fazer campanha batendo de porta em porta. Nós acreditamos que a política não é “aquele treco que acontece a cada 4 anos com o apertar dos botões das urnas” e esses momentos de campanha são excelentes para levar essa mensagem, conversar com a população e explicar a necessidade de acompanhar, observar, participar. Sei que é difícil, mas ainda tenho esperança e, apesar da minha relativamente pouca idade, quando olho para trás, vejo que a filiação partidária foi uma das decisões mais acertadas que tomei.
    Grande abraço!

    • panografias disse:

      Fico feliz por você minha querida amiga… são experiências que temos na vida, e todas são válidas, sejam elas positivas ou negativas. Os dois lados de uma mesma moeda. Isto me remete a uma frase minha: “Se errar é humano, estamos no caminho certo” rsrsrsrs. Assim como você, também tenho esperança nas pessoas, já na política está deixando a desejar! Obrigado pela visita e comentário… beijo no coração!

  7. Belíssimo texto!

    • panografias disse:

      Obrigado meu querido amigo… são experiências únicas, mas parece que o sistema político continua o mesmo! Grande e forte abraço

Seu comentário é sempre bem-vindo, Amigo... obrigado !

error: Content is protected !!
%d blogueiros gostam disto: