Último Suspiro

Luiz1

          Recentemente (10/05/2015) fui convidado à participar de um desafio lançado pela nossa amiga Dulce, em nosso querido espaço Tubo de Ensaio. O desafio consistia em publicar, em palavras ou desenhos, enfim… de livre expressão artística, alguma coisa que baseasse na seguinte reflexão: “E se o sol amanhã não nascer?!”, o que resultou neste maravilhoso momento poético (desde já atesto que vale a pena conferir: Tubo de Ensaio: “E se amanhã…), cuja participação minha foi este pequeno poema abaixo:

 
 
 
Carregaria no colo meu amigo,
para a overdose de vitamina D.
Nossa sombra de relógio solar,
marcaria o tempo de agradecer.
Passaria filtro com tanto zelo,
deixaria-o afrodescendentar.
Com uma lupa filtraria um raio
e uma fogueira faria levantar…
Para que quando o sol se puser,
se por acaso for último suspiro,
na noite aqueça meu coração,
num luau de sol do teu sorriso.

 

          Ao me fazer a pergunta: “E se o sol amanhã não nascer?!”, me veio uma série de outras perguntas como: “O que um ser humano faria?! ” (sim… porque ainda que as pessoas não acreditem, os escritores e poetas são seres humanos, salvos aqueles que acreditam que foram abduzidos). O que eu faria e com quem faria?!.

          Naquele momento só me veio à cabeça meu amigo “Luiz com Z”. Naquele momento “Luiz com Z” estava hospitalizado, vítima de uma fibrose pulmonar, que comprometeu 85% de seu pulmão e que faria-o respirar pelo resto da vida através de uma máscara e balão de oxigênio, tornando-o dependente de uma cadeira de rodas. Naquele momento, eu e outros amigos e familiares, gozavam de perfeita saúde para celebrar a vida, enquanto o meu amigo “Luiz com Z” tinha as esperanças reduzidas, impossibilitado de fazer um transplante, e obrigado a viver com 15% apenas de seu pulmão. E eu, como perfeito estúpido, ser humano que se diz ser amigo, menti descaradamente para ele dizendo que: “Milagre não é adoecer e se curar Luiz… milagre na vida da gente acontece todos os dias quando acordamos, independente da nossa situação física ou financeira e… este sim, é o momento de darmos graças”. Fiz acreditar que tudo ficaria bem, e “nada como um dia após o outro”. Fiz acreditar que viveria por muitos anos ainda. 

          Neste último domingo não pude leva-lo para afrodescendentar. O tempo frio não ajudou muito e ele teve que se contentar apenas com um creme de massagem usado para estimular a oxigenação precária de seu sangue. Não gostei do que vi. Não vi o brilho do seus olhos e nem seu sorriso gostoso, que era seu maior patrimônio… sua marca registrada. E naquele momento não podia mentir mais para ele. Nem para família e nem para mim mesmo. E antes que o sol se pusesse, ele deu seu último suspiro. Não houve tempo de filtrar um raio solar com a lupa e acender a fogueira, mas a lembrança de seu sorriso largo, aquece e faz um luau no meu coração. Neste momento, enquanto as lágrimas saem sem pedir licença querendo teclar também um sentimento, o sol acaba de nascer. E lá vou eu agradecer novamente o anúncio deste milagre, e externar a minha gratidão pela sua existência, que… só agora pude perceber que, bem mais que um amigo, ele era um “irmão”.

PS: Não sei por que cargas d’água eu deixava “Luiz com Z” irritado ao escrever o seu nome com “S”, o que me rendia deliciosas gargalhadas… coisas de amigos rsrsrsrsrs

 Abraços a todos

Sandro Ernesto 26/05/2015

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6 Resultados

  1. Cristileine Leão disse:

    Sandro, com esse texto vi o sol baixando para o seu amigo de um lado da Terra e se revelando no outro, coisas do meridiano. Belo e emotivo texto. Abraços ‍♀️

    • panografias disse:

      Obrigado minha querida amiga… hoje me dei conta de como o tempo passou rápido. Parece que foi ontem. Posso lhe dizer que era uma pessoa muito especial. Um grande abraço

  2. Anônimo disse:

    Muito bonita a homenagem ao seu amigo. Fiquei com os olhos marejados

  3. dulcedelgado disse:

    Bela homenagem iluminada por um novo dia! Certamente que o seu amigo olhou para trás e sorriu!

    • panografias disse:

      Creio que sim Dulce… ele era um amigo como poucos e até o último minuto, ensinou-me o valor da amizade. Simplesmente amava-o (amo, porque os amigos não morrem jamais). Obrigado sempre minha querida amiga… beijo no coração!

Seu comentário é sempre bem-vindo, Amigo... obrigado !

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