Boneca de pano



          Há de se convir que ela fosse bela. Não a beleza etérea que ofusca os olhos dos pobres mortais, mas a beleza da simplicidade eleita pela mais pura inocência. O brilho dos olhos encantavam os mais moderados, e se não os deixavam petrificados tal qual olhar de medusa, era inevitável e desconcertante. Olhos verdes… verdinhos. O vestido pobre ressaltava a riqueza de suas curvas que ainda menina, germinava a mais bela moça. Apaixonei-me, e acredito que outros tantos em silêncio o fizeram. Caíram poucos grãos de areia da ampulheta até que alguém a desposou. Sugou-lhe a virtude e ofuscou-lhe o brilho, penetrando-lhe a carne como se fosse um viking chegando de longa batalha. Fez-lhe escrava. Invadida seu corpo e sem nenhuma repulsa, como um gato que tem sete vidas, sete vidas pariu. E como sete fosse sua sina, por sete vezes foi espancada quase à morte pelo carrasco em seus anos de cárcere. Sobreviveu. 

          Naquele ano, o anjo da norte a livrou do seu algoz. Agora livre, olhando-se no espelho frontal daquela loja, sentia pena de si mesmo achando-se velha aos 23 anos. De repente o brilho de seus olhos voltou como o nascimento de uma estrela e um leve sorriso como há muito tempo não se desenhava, rejuvenesceu seus traços. Esquecida num canto da prateleira, a boneca de pano de sua infância era ofuscada pelas luxuosas Barbies da vida. Comprou-a sem hesitar e presenteou a si mesma. Sorria. Queria apenas relembrar com solicitude o frescor da infância naquele natal.

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