BIRIBIDI PATIRITIPI

 

       Biribidi patiritipi… biribidi patiriti… Biribidi patiritipi… biribidi patiriti…

       Ninguém merecia aquela musiquinha infernal cantada baixinho ao pé do ouvido três aulas seguidas!  Resolvi protestar e a professora deixou o “dito-cujo” de pé no canto da sala. Ainda assim a provocação era nítida. Fazia a palma da mão esquerda de palco e punha os dois dedos da outra mão a dançar num vai e vem desconjuntado. Havia assistido uma edição de um programa do domingo de esporte, onde eles faziam os jogadores voltarem os movimentos errados da partida numa espécie de dança engraçada, em um ritmo de rumba. Permaneceu ali em pé sorridente a provocar-me. Mal havia colocado os pés para fora do colégio e me vi seguido pelo “dito-cujo”. A presença de mais meninos era um agouro. Haveria briga.

       Biribidi patiritipi… biribidi patiriti… Biribidi patiritipi… biribidi patiriti… continuava a provocação. Os dois dedos da mão continuava dançando desconjuntado sobre a palma da mão esquerda. Agora era um coral de onze meninos. Não resisti. Bastou um murro para que viesse ao nocaute. Foi um só no pé da orelha. Não estava acostumado a brigar, mas foi a gota d’agua. Ofegante e com os punhos cerrados, pude vê-lo caído com um sorriso largo no rosto, voltar a cantar a musiquinha chata e fazer a dancinha dos dedos, ali no chão. Fiquei incrédulo com o que havia feito e mais ainda com reação do “dito-cujo”. Corri envergonhado e meu coração de menino de 12 anos ensaiou a noite toda, um pedido de desculpas.

       No outro dia, fingi não ouvir a musiquinha agora cantada por alunos de outras turmas pelo corredor. Ao chegar à minha sala de aula ouvi a gargalhada de mais de 40 alunos e lá no quadro negro, acreditem, estava escrito em letras garrafais e entre flores: BIRIBIDI PATIRITIPI. Por incrível que pareça nunca mais ouvi a provocação do “dito-cujo”, mas o apelido pegou. Quem testemunhou BIRIBIDI PATIRITIPI nocautear um colega com apenas um murro no pé da orelha não queria pagar para ver (mal sabiam eles que a aparente valentia não passava de puro medo). Com o passar do tempo o apelido encurtou para apenas BIRIBIDI. BIRIBA para os íntimos. Ainda hoje, quarenta e tantos anos depois, quando me lembro da musiquinha que originou o apelido, pergunto-me: o que o “dito-cujo” pensava naquele momento caído ali no chão? Não sei o porquê, mas sempre associo aquela cena com a famosa “Dança dos Pãezinhos“ de Charlie Chaplin na minha cabeça.  Se fosse nos dias de hoje, as pessoas diriam que fui vítima de bullying, mas confesso que o apelido era tão, mas tão ridículo… Que acabei por gostar. Combinava comigo!

Autor: Sandro Ernesto 04/08/2017

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