Divisor de algas

__Tô ferrado! _ Foi o que pensei quando a vi tão de perto.

__A princípio acreditava ser Iemanjá, a rainha das águas. Mas não. Não era. Era a dita cuja em carne e osso (se é que posso dizer assim). Pairava sobre aquelas ondas furiosas que se digladiavam entre si. Poucos instantes atrás havia alertado as crianças para o perigo. Tirei daquelas ondas as menininhas loiras e o rapazinho que viera conosco nesta excursão de 2023. Literalmente “o mar não estava para peixe”. E agora, lá estava eu. Um *cisquinho no mar sendo jogado de um lado para o outro. E ela ali. Por alguma razão ainda desconhecida por mim, olhava atentamente para dois pontos distintos. Do lado direito, para aquelas pedras que as ondas camuflavam na beira da praia onde o atleta de triatlo nadava de um lado para o outro como um golfinho. E o lado esquerdo, para aquelas rochas escorregadias onde os turistas tiravam suas melhores selfies para as redes sociais. Por alguma razão não olhou para mim. Bem ali, do meu ladinho. O estoicismo em pessoa. Parecia ler meus pensamentos, pois esboçou um leve sorriso balançando a cabeça levemente quando pensei que ela não ia me perdoar por ter escrito o conto Vida e morte natalina. Não se parecia nada com aquela *tepeêmeadíssima personagem. Tinha traços da Vênus de Boticelli vestida de seda branca. Também parecia certa da minha insignificância. Eu, que já havia passado por situações de periculosidade relatadas na crônica Banheiras, agora estava ali em uma situação ainda maior de perigo extremo, agravado por uma forte gripe.  Definitivamente não era dia de *jubartear. Lutava com todas as minhas forças, mas até quando aguentaria aquela adversidade? Como fui ignorar as correntes de retorno novamente? Em frações de segundo me distanciava cada vez mais. Ela continuava atenta e nunca olhava para mim. Também não me estendeu a mão, o que entendi como algo positivo. Naquele momento a luta maior era internamente e quase fui tomado pelo desespero. Pensava comigo que se escapasse desta com vida literalmente seria um “divisor de águas” na minha vida. A última vez que a vi, seu olhar continuava nos pontos distintos e subitamente voltou-se para as unhas das mãos.  Roeu-as levemente e cuspiu virando-se pela primeira vez para mim. Seu olhar de compaixão sussurrou pausadamente como se fosse seu último aviso: Não é hora para heroísmo… se eu fosse você gritaria por socorro agora mesmo antes que seja tarde!

__Foi o que fiz com todo ar estocado de meus pulmões. Gritei por socorro como nunca havia gritado. Gritei tão alto que todos os olhares na praia se voltaram para mim. Um dia é da caça, o outro do caçador. Fui socorrido por dois salva-vidas que pareciam torpedos dentro d’água. Enquanto um era compassivo perguntando sobre meu estado físico emocional, o outro injuriado me chamava à atenção por ter sido displicente. Não chegaram a vê-la.

__Fui recebido por curiosos que queriam saber de mais detalhes do afogamento. Não afoguei! _era apenas o que respondia me sentindo envergonhado pelo acontecido. Mas indiscutivelmente não senti e nem sinto vergonha em dizer que chorei. Quem disse que homem não chora? Chorei. Chorei ao pensar nos pais daqueles adolescentes que estavam nas rochas escorregadias tirando selfies para suas redes sociais. Um escorregou caindo no mar e o outro pulou para fazer o salvamento. Morreram os dois. Chorei também ao pensar na família do atleta de triatlo que nadava perto daquelas pedras camufladas pelas ondas. A placa vermelha de perigo ainda estava lá. Fincada nas areias da praia.

 

Autor: Sandro Ernesto 11/02/2024

*cisquinho: pequeno cisco

*tepeêmeadíssima: irritação ao extremo próprio do Transtorno disfórico pré-menstrual

*jubartear: comportamento de repouso semelhantes as baleias jubarte, boiar de costas

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10 Resultados

  1. estevamweb disse:

    Aí sim! Voltou com toda carga e circunstância! Muito bom!

  2. dulcedelgado disse:

    Nunca me vi numa situação dessas, felizmente, mas tenho um profundo….enorme….e imenso respeito ao mar!
    Não era mesmo a sua hora.. ou seja, ainda tem muito para fazer por aqui!

    • panografias disse:

      Também tenho um profundo respeito ao mar mas nunca tive medo… não como tive naquele momento! Acredito que não era mesmo minha hora Dulce! Obrigado pela leitura e comentário minha cara amiga… tenha uma noite abençoada! Gratidão

Seu comentário é sempre bem-vindo, Amigo... obrigado !

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