Crônicas da vida

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        O que para alguns é pura intuição, para outros se trata de mediunidade. Mas isto não vem ao caso. O fato é que sempre tive sensibilidade aflorada. Ainda pequeno conseguia pressentir determinados acontecimentos. Enquanto agradáveis, sem relevâncias, para mim estava dentro da normalidade. Mas, no pacote vieram também pressentimentos negativos, inevitáveis. Nestes casos, cair em oração é opção a ser assinalada.  Sentir tristeza ou melancolia às vezes é natural, mas sempre soube diferenciar o que era meu, daquilo que vinha de fatores externos. Naquela noite não foi diferente.

        Não conseguia dormir. O choro era sufocado por uma forte sensação de impotência. Uma apreensão descomedida com automóveis fez com que rogasse proteção para cada um de meus cinco filhos. A cada pedido meu, o coração de certa forma era abrandado, mas o pressentimento assolava- me intensamente. As orações foram estendidas aos familiares e amigos. Queria entender o porquê daquela aflição toda. Nunca vi a morte como um personagem malévolo. Sinal de resiliência?! Talvez. E sob uma chuva torrencial de lágrimas e um turbilhão de pensamentos, a crônica Vida e morte Natalina foi escrita. Ainda que escrita de forma humorada, era um vaticínio. Passaram-se onze dias. Angústia e orações. Onze dias até o personagem de minha crônica levar meu querido sobrinho na noite do réveillon de 2017. Um acidente de carro interrompeu o auge dos seus 20 anos. Fatalidade.

        Tenho em mente que as pessoas que amamos não morrem. Encontram-se ali, naquele espaço tão delas em nossos corações que é impossível tira-las de alguma forma. O tal “Usucapião”. As lembranças virão holograficamente arrebatadoras, com o peso nostálgico da saudade, mas, também com a alegria daqueles momentos inesquecíveis. As pessoas morrem quando caem no esquecimento. Relembrar é viver.  É torna-las viva.

       Ele tinha por volta de 10 anos quando fomos a um passeio na serra de Santa Helena. Fomos levar um primo de minha esposa (filho de um tio desaparecido por 50 anos) para conhecer os pontos turísticos da cidade. A cada foto que eu tirava no celular de baixíssima qualidade, era acompanhada de um comentário.

— Esta, vou dizer que estávamos no Parque da Serra do Curral…  e esta, que estávamos no Serro… esta, no Instituto Inhotim. Ele, comprando a ideia imediatamente, exclamou:

— Esta, nós vamos falar que estávamos na praia! disse arrancando-me um sorriso.

— Além de estar todo mundo de roupa, Minas não tem praias! argumentei. Mal havia pronunciado as palavras e em segundos, lá estavam os três seminus, exibindo suas cuecas. Mas o que me levou mesmo às gargalhadas foi vê-los destrocando as peças de roupas para se vestirem quando lhes disse que poderiam ser presos por Atentado violento ao pudor. Foi um dia de muita alegria para mim e festa para os pernilongos.

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Sandro Ernesto 12/02/2018

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