Uma santa chamada Ivone

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          Nasceu paulista a mais mineira de minhas irmãs e foi justamente na Basílica Velha de Aparecida, que meus pais chegaram sozinhos com ela para ser batizada. Assim, por força das circunstâncias começava o primeiro e o mais lindo capítulo de sua história sessenta anos atrás. Ficaram como padrinhos de batismo o pároco e a própria Nossa Senhora de Aparecida. Sim… Exatamente isto que vocês leram. Não eram apenas os olhos verdes que Ivone tinha. Ela tinha também o dedo verde feito o menino Tistu do famoso livro. Conversava com as plantas com o mesmo carinho que tratava a todos e por isso amava ganhar e dar de presentes flores. Ainda uma menina, assumiu a responsabilidade de irmã mais velha e tomou o cargo de “braço direito de minha mãe” para si sem resignar-se. Formou-se em contabilidade com louvor e a sua capacidade invejável de memorização fez com que começasse a trabalhar muito cedo (uma espécie de disco rígido humano que dispensava consultas em arquivos). O segundo turno era sempre em casa. Sempre que chegava do trabalho arregaçava as mangas e ajudava minha mãe nas tarefas do lar. Com isto tornou-se além de irmã e filha dedicada, a melhor amiga confidente de minha mãe. Aliás, eu sempre a considerei uma segunda mãe. E como uma segunda mãe, também protegia-nos na hora das varadas. Casou-se. Não pode ter filhos e justamente por isto, acusavam-na de bigamia por ter casado com a família primeiramente e nunca se divorciado. Sim… a família era seu matrimônio! Dizia sempre em risos: … como posso ter filhos, se já tenho dez para criar?! E quando digo família, coloca-se aí neste caldeirão todos os seus amigos, meus amigos, amigos dos amigos e muita gente que ela amava de coração. Tinha um amor incondicional e porque não dizer, uma veneração pelos meus pais. Ao longo de minha vida sempre, mas sempre mesmo, ouvi das pessoas que a conheciam o seguinte comentário: Ivone?! Você é irmão da Ivone?! Não acredito… aquela é uma santa, viu?! Que alma generosa é a Ivone! E lógico que ficava todo todo orgulhoso, afinal de contas, quem não quer ter uma santa viva como irmã?!

          Em 2016 foi diagnosticada com um tumor em uma das mamas. O cabelo havia caído devido o tratamento, mas isto não a impediu que participasse de uma das mais lindas surpresas de minha vida registrada na crônica “meu feliz aniversário”. Não perdeu a fé muito menos o humor. No natal do ano passado confessou-me ruborizada (como se fosse o maior dos maiores pecados do mundo) que, tampava minha boca quando pequeno porque segundo ela, eu não chorava… Simplesmente esgoelava feito sirene. Custei aprender a chorar com educação, mas aprendi. Este final de semana passei ao seu lado, na sua casa vendo a vida esvair-se do seu corpo, e chorei feito criança. Chorei em silêncio, mas se tivesse a certeza de que ela teria forças para tampar minha boca eu juro a vocês que esgoelaria só para sentir suas mãos na minha boca pela última vez. Faleceu as 16:00 hs porque ás 18:00 já tinha um encontro marcado com sua madrinha. A sua despedida nesta segunda-feira foi marcada pela presença de centenas de amigos e mais uma vez ouvi por dezenas de vezes comentários de que ela era uma santa. Ouvi também minhas irmãs dizerem que, a deliciosa “torta” de abacaxi que ela sempre fazia em todas as ocasiões e que era a sua especialidade, na realidade se chamava “Charlote” de abacaxi. Torta ou charlote, gostaria mesmo de saber com quem ficou sua receita secreta. Só de pensar, a boca enche d’agua e os olhos também.

          À IVONE APARECIDA, minha irmã amada do coração, a mais generosa, amiga, amorosa, dedicada, guerreira, humilde, zeladora, linda, [ Espaço reservado para mais tantas outras qualidades ] enfim… A MELHOR IRMÃ DO MUNDO QUE ALGUÉM PODERIA TER NA VIDA, deixo aqui expressado todo meu amor e admiração. Para todo o sempre… te amamos minha querida irmã!

Sandro Ernesto 26/02/2018

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22 Resultados

  1. Anônimo disse:

    Amei conhecer a vida de Ivone Também sou Ivone e tenho olhos verdes.Pessoas assim nos fazem ter esperanças. GRATA PELO POST

    • panografias disse:

      Olá Ivone… fico feliz por ter gostado da história de minha irmã. Coincidentemente este mês fará um ano de sua partida, mas ela continua mais do viva em nossos corações. Obrigado pelo carinho… beijo no coração!

Seu comentário é sempre bem-vindo, Amigo... obrigado !

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