Almoço de domingo

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            Não entendia como poderia haver vida naquelas minúsculas criaturas. Por causa deste pensamento muitos insetos sofreram atrocidades por mim. Mas no geral podia ser considerado a encarnação de São Francisco de Assis na versão infantil. Havia me tornado um verdadeiro columbófilo devido a influência de meus amigos de infância que criavam pombos de raça. Pelo meu pombal havia passado o pombo Correio, o Jacobino (chamado por nós de Capuchinho), o Gravatinha, o Rabo de leque, a pomba galega (Verdadeira) dentre tantos. Em uma determinada época meu pombal foi acometido por um surto de piolhos. E antes mesmo que providenciasse a dedetização do mesmo, a minha mãe bateu o martelo:_ Quero estas pragas bem longe do meu quintal até amanhã, está ouvindo Sandro Ernesto. Ser chamado de lindinho, capeta, praga, tentação ou qualquer outro apodo era um sinal de que a situação era contornável, mas pelo próprio nome não tinha conversa. Não tinha “mas”. E lá fui eu, com os bichinhos debaixo dos braços fazer a doação forçada para um amigo. Observei que no terreiro da casa dele havia apenas um pintinho. Ao saber que havia sido achado na rua perdido, pedi que me desse em troca como retribuição. Era tão mirradinho o pobre coitado que tive que alimenta-lo no bico nos primeiros dias. Não demorou muito para que transformasse numa belíssima galinha pedrês que me seguia pelo quintal feito um cachorrinho. Talvez porque fosse sua única referência materna ou a certeza de que o alimento diário estava garantido. Era o único exemplar vivo que reinava por ali.

            Certo domingo saímos para passear. Chegamos e a mesa do almoço já estava posta. Mal tivemos tempo para lavar as mãos e já estávamos saboreando aquele delicioso frango com quiabo. Estranhei que minha mãe delicadamente servia-me as miudezas que era disputada por todos. Tudo muito delicioso. Levantei da mesa ainda com o copo de refrigerante na mão e a outra alisando a barriga saciada. Ali mesmo na porta da cozinha vi algumas penas que se espalham pelo quintal feito roupa de um casal em noite de núpcias. O coração disparou. Enfiei o dedo na goela como quisesse traze-la de volta à vida, mas o estômago a segurou com unhas e dentes garantindo assim a minha sobrevivência. Afinal seria um desperdício. E como estava deliciosa! Sentei ali no fundo do quintal, entristecido pela malfadada sina de minha carijó. Mas quem também em sã consciência tratava uma galinha como bicho de estimação?! Meu luto durou pouco mais de duas horas. Naquela tarde outro amigo trouxera-me de presente um filhotinho de porquinho da índia, e a felicidade e apreensão bateram à minha porta simultaneamente. E antes mesmo que minha mãe reclamasse ou quisesse saber se aquele animalzinho ficaria assim ou assado, já adiantei dizendo: –Não mãe… não cresce, não dá piolhos e nem é comestível, entendeu?! Não é de comer… Não é para comer…    

Sandro Ernesto 10/12/2017

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8 Resultados

  1. Gosto tanto desses seus textos que me lembram a roça, me trazem cheiro de infância.

    • panografias disse:

      Confesso que tive uma infância tão gostosa que trazer estas lembranças à tona é uma certa de sorriso estampado no rosto. Fico feliz por ter gostado do texto minha querida amiga. Beijo no coração e obrigadooooo

  2. ludoevico disse:

    Adorei! Senti suas emoções de criança✨✨Um lindo domingo pra você! Beijo no coração

    • panografias disse:

      Olá minha querida amiga… e põe emoções nisso kkkkkkkkkk obrigado pela visita e comentário sempre tão generosos. É bom saber que gostou… beijo no coração e tenha um domingo feliz e abençoado.

  3. Que doce e triste lembrança, a infancia e o perder da inocência…

    • panografias disse:

      Obrigado pela visita e comentário… é verdade o disse (se bem que a tristeza nunca foi duradoura em mim… apenas o necessário para cada momento). Tenha uma semana abençoada e produtiva… abraços!

  4. dulcedelgado disse:

    Galinha de estimação é afecto… e afecto é família!
    Por vezes as nossas mães eram demasiado objectivas e duras!!!
    A minha matou uns coelhos e não eram de “estimação”, para mim eram apenas lindos…mas ainda hoje não gosto e não consigo comer coelho!

    • panografias disse:

      É verdade Dulce… afeto é família. Entendi perfeitamente minha mãe naquele momento, até porque ela cozinha maravilhosamente bem. Quando somos criança, temos uma visão diferente da dura realidade como foi registrada aqui. Meus filhos criaram coelhos aqui também. Na primeira ninhada distribuímos todos os filhotinhos e recusei matar os adultos… para mim também eram apenas lindos. Obrigado minha cara amiga pela visita e comentário… beijo no coração!

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