Vendedor de picolé

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            Não me dei muito bem como vendedor de picolés na minha infância por causa da minha estratégia de marketing. Como?! Oras bolas… Parava o carrinho de picolé em ponto estratégico, escolhia o sabor preferido e saboreava-o lentamente, bem devagarzinho. Cada lambida saía provocante, que nem aquelas cenas de propaganda de shampoo, quando a modelo retirava o capacete e balançava a cabeça soltando seus cabelos sedosos esvoaçantes em câmera lenta. Chegava a cerrar os olhos para dar mais veracidade na minha atuação. Isto passava confiança ao consumidor e funcionava. Sempre funcionava. O problema era os excessos. A cada três picolés vendidos, um era destinado ao marketing. O resultado é que sempre ficava devendo a fábrica. “Todo exagero é maléfico, ainda que saboroso…” já filosofava naquela idade. Naquele sábado acordei determinado a fazer diferente: _hoje arrebento a boca do balão!

            Saí com o carrinho abarrotado de picolés. Resolvi passar antes na casa do meu melhor amigo, o Gilberto. Marketing vai, marketing vem… até que Gilberto teve a brilhante ideia de fazer as vendas na Lagoa Seca. Haveria instrução militar e a turma do tiro de Guerra estaria lá em peso. Mal chegamos e fomos cercamos por um pelotão de soldados suados e sedentos. Loucura total. Repetia feito uma vitrola: _tem de coco branco, coco queimado, abacaxi, chocolate, limão, uva, laranja… Tem de coco branco, coco queimado, abacaxi acabou, chocolate, limão, uva, laranja… Tem só coco queimado, chocolate, limão, uva… tem só limão e uva… só uva.

            Cento e oitenta picolés e trinta potes de sorvetes em apenas dez minutos. Estava transbordando alegria. Sentei debaixo de uma frondosa árvore para conferir o dinheiro e constatei de que não fechava o caixa. Faltava o valor de quarenta picolés. E antes mesmo que começasse a chorar, o Gilberto tomou a frente: _Ô Seo Sargento… o pessoal deu o cano no meu amigo aqui. Saíram sem pagar os picolés!

              O sargento sem pestanejar deu exatamente 5 minutos para que o dinheiro aparecesse. Foi um tal de “não fui eu” daqui, “não fui eu” de lá, até que, perdendo a paciência, os soldados foram colocados em formação debaixo do sol escaldante. Sentado junto a mim, debaixo da frondosa árvore, o sargento aguardava pacientemente. O suor escoria de seus rostos e o silêncio perpetuava. Vez ou outra conseguia fazer a leitura labial de ameaças do tipo: Vou torcer o seu pescoço!  Passaram-se cinquenta minutos até que, por unanimidade, resolveram pagar a quantia que faltava fazendo uma vaquinha. Recebi ansioso, não antes de ouvir mais ameaças sussurradas ao pé do ouvido. Saí dali apavorado com o que podia me acontecer e resolvi esconder na casa do Gilberto até que passasse a hora do agrupamento dispersar. Mal coloquei os pés dentro da casa e a irmã do Gilberto veio ao meu encontro dizendo: os sorvetes e picolés que chupei pagarei amanhã ok?! A outra irmã replicou: os meus pagarei à tardinha, está bem?! Seu irmão também falou: Vou pagar agora, quanto devo?! Foi quando, que percebendo a situação ouvi uma gargalhada estrondosa do Gilberto. Havíamos esquecido os picolés que vendi para serem pagos depois, os picolés que haviam sido distribuídos gratuitamente e os do marketing que eu havia chupado. Naquele dia descobri o valor do silêncio. Fiquei imaginado cinquenta minutos de pé debaixo do sol escaldante e uma centena de soldados a fazer troça de mim. Não! Melhor não! Nem toda verdade merece ser dita. E assim foi a última vez que vendi  picolés.

              Domingo passado resolvi visitar meu amigo Gilberto, e a lembrança deste episódio 45 anos depois ainda rendeu boas gargalhadas, não só de nós dois, mas também de nossas esposas e filhos. Nossa amizade sobreviveu e ainda continuo bom de marketing. Pena que amanheci com a garganta inflamada!

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Sandro Ernesto 13/01/2018

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20 Resultados

  1. Jauch disse:

    xD
    Ernesto, foi das melhores coisas que li nos últimos tempos!
    Obrigado por compartilhar! 🙂

    • panografias disse:

      Como é bom ler seu comentário meu caro amigo… fico imensamente feliz com isto. Na realidade a lembrança deste episódio me faz encher os olhos de rir até hoje. Obrigado meu querido amigo pela visita e comentário tão gratificante. Um grande abraço!

    • Jauch disse:

      😀

  2. ANAFOG disse:

    rsrs…….ri muito…..bem surpreendente…..jamais imaginaria este desfecho….

  3. peregrinacultural disse:

    Muito engraçado.

    • panografias disse:

      Olá Ladyce West… realmente é uma história muito engraçada que me rende muitas gargalhadas ainda (no dia foi tenso rsrsrsrs). Obrigado minha querida pela visita e comentário. Beijo no coração

  4. Imagina algum dos soldados lendo isso agora

    • panografias disse:

      Provavelmente vão rir também Cristileine e dizer: então foi você, o cabeçudo do picolé?!! kkkkkkkk Espero que não me façam pagar os picolés com juro e correção monetária kkkkk. Beijo no coração

  5. Boa!kkkk
    Sacanagem com os soldados!kkkkk

  6. Jair Vargas disse:

    Kkkk Fazia tempo que não ria com um texto tão gostoso como esse 🙂

    • panografias disse:

      Eu imagino meu querido, pois eu, até hoje depois de tantos anos caio na gargalhada kkkkkk. Você consegue imaginar o sufoco depois que descobri a gafe que havia cometido?! (foi sem querer querendo) kkkkk Um grande abraço e novamente obrigado pelo carinho.

    • Jair Vargas disse:

      Eu consigo fazer uma pequena ideia kkk até imaginei um pouco disso tudo

    • panografias disse:

      Toda vez que encontro o Gilberto (ainda somos grandes amigos) é inevitável a lembrança desta passagem kkkkkkkkk Abraços meu querido!

  7. JCDattoli disse:

    Que crônica legal, Sandro. Parabéns!!!

    • panografias disse:

      Fico feliz por ter gostado meu caro amigo… é um episódio muito engraçado que ilustrou a minha infância e que me rende algumas gargalhadas até hoje. Tenha um domingo iluminado! Abraços

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